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Os diversos Movimentos de Luta Por Moradia, comunica através de uma carta aberta a
realização de uma GRANDE MARCHA DOS SEM TETO, NO DIA 19/01/10 (terça-feira), com
saída da Estação Mussurunga, com destino a Governadoria. A seguir a carta aberta...
A partir da luta histórica do
Movimento Nacional de Reforma Urbana, iniciado nos idos dos anos de 1980, o
Brasil definiu o cumprimento da Função Social da Propriedade e o Direito Social
à Moradia na Constituição Federal de 1988 e com a aprovação do Estatuto da
Cidade em 2001, regulamentou a Política Urbana com base nas diretrizes do
Direito à Cidade, da Gestão Democrática das Cidades, da Regularização Fundiária
dos assentamentos precários populares de aplicação de instrumentos de
Democratização e popularização do acesso à terra urbanizada.
Mas apesar dessas conquistas legais,
apenas com a eleição do Presidente Lula em 2002 e sua reeleição em 2006,
lastreada pelas forças políticas democráticas e populares, é que se iniciou de
fato a elaboração e implementação da nova Política Nacional de Desenvolvimento
Urbano (PNDU) em outras bases, nesse contexto foi criado o Ministério das
Cidades (2003), foi eleito o Conselho Nacional das Cidades (2003), foi
instituída a realização bianual de Conferências das Cidades (2003), foi
aprovada a Lei federal de iniciativa popular que cria o Sistema Nacional de
Habitação de Interesse Social, o Fundo Nacional de Habitação de Interesse
Social (FNHIS) e seu respectivo Conselho gestor (2005), foi realizada a
Campanha Nacional pela elaboração de Planos Diretores Participativos (2005) e
foi aprovado o marco regulatório do saneamento básico (2007), dentre outros
avanços.
Na Bahia os movimentos de moradia
ajudaram a eleger o Governo Estadual encabeçado pelo petista Jaques Wagner em
2006 - cuja ascensão rompe quase duas décadas de oligarquia política que sempre
privilegiou as elites de nossa cidade - e que assumiu o compromisso de cumprir
como metas a produção de cem mil novas moradias, cem mil unidades melhoradas,
sessenta mil unidades beneficiadas com regularização fundiária e sessenta mil
unidades beneficiadas com obras de urbanização, na gestão 2007-2010, sendo que
a Política Estadual de Habitação de Interesse Social (PEHIS) aprovada em Lei
Estadual 2008, definiu entre seus objetivos, princípios e diretrizes a garantia
do direito à moradia digna do acesso à terra urbanizada e titulada para a
população de baixa renda urbana, a justiça social nas situações de conflitos
socioambientais, prioridades para as situações de risco à vida, insalubres e de
preservação permanente, bem como as sujeitas a deslocamento e despejos, além do
respeito às organizações comunitárias. Estas definições se aplicam à
totalidade das ocupações dos movimentos sem-teto, de luta por moradia digna e
pela Reforma Urbana, sendo que a realidade e demandas de 42 desses
assentamentos precários foram apresentadas tanto ao Governo do Estado como à
Prefeitura de Salvador em duas audiências públicas, realizadas em 2007, que
apresentaram o Relatório do Grupo de Trabalho de Conflitos Fundiários Urbanos e
Violações do Direito à Moradia Adequada, de iniciativa da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa Estadual em parceria com a Defensoria Pública
do Estado, todavia, as intervenções Estadual e Municipal tem sido tímidas.
Neste cenário oportuno para o
cumprimento da agenda da Reforma Urbana o Governo Federal estabeleceu uma
verdadeira retomada dos investimentos públicos no desenvolvimento urbano,
sobretudo a partir do ano de 2005, em setores como habitação e saneamento,
estabelecendo uma significativa destinação de recursos públicos federais para
atendimento da população com rendimentos mensais de até cinco salários mínimos,
onde se concentra 92% do déficit habitacional, realizada por mecanismos como: a
exigência de aporte de 60% dos recursos do Fundo de Garantia por Tempo de
Serviço (FGTS) para Habitação Popular; pela criação do FNHIS, que
disponibilizou subsídios da ordem de dois bilhões de reais nos anos de 2007 e
2008; pela vigência do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) que prevê até o
ano de 2010, investimentos de cerca de R$ 503,9 bilhões nas áreas de
transporte, energia, saneamento, habitação e recursos hídricos, sendo que desse
total R$ 106,3 bilhões são relativos à habitação e R$ 40,0 bilhões para
saneamento (o Estado da Bahia teve 10 áreas contempladas, em quatro municípios,
com recursos do PAC para Urbanização de Favelas que devem beneficiar 26.339
famílias com investimentos da ordem de R$ 368 milhões), e mais recentemente
pela instituição do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), voltado para a
implementação do Plano Nacional de Habitação, através da construção de hum
milhão de novas moradias, garantindo-se o atendimento de 400 mil famílias com
renda até três salários mínimos e a geração de emprego e renda no setor da construção
civil, com a disponibilização de R$ 34 bilhões de reais.
Problemas e desafios para a promoção da
Moradia Digna e do Direito à Cidade em Salvador: a necessidade de
reconhecimento das demandas do Movimento Popular
- Apesar da afirmação do Direito à
Cidade e da função social da propriedade na PNDU do polêmico PDDU de Salvador e com a eleição do
Conselho Municipal das Cidades - que passado dois anos, nunca tomou posse -
mesmo com a construção da Política Estadual de Habitação com seu respectivo
Conselho Estadual paritário e autônomo e mesmo com a incrível disponibilidade
de recursos; quando se observa a
dinâmica da produção do espaço pelos poderes públicos em Salvador, tem-se que é
irrisório o atendimento das demandas por moradia digna e direito à cidade dos
movimentos sem-teto, de luta pela moradia e de luta pela Reforma Urbana, sendo
que na prática a produção pública não responde, e por conseqüência não
reconhece diretamente, as reivindicações por promoção do direito à cidade
destas situações. Isso pode ser constatado pelo fato de que do total de 19
(dezenove) empreendimentos aprovados em 2007, cujos requerentes são órgãos ou
instituições públicas, apenas um refere-se a tais demandas (a intervenção de
urbanização integrada na Av. Aliomar Baleeiro em Mussurunga - Alvará No
13541, que diz respeito a solicitação pelo MSTS de execução e conclusão de
Projeto de Habitação de Interesse Social e programação para atendimento de
novas demandas). Em 2008 do total de 15 (quinze) empreendimentos correspondentes
a alvarás de construção requeridos por órgãos e instituição públicas o número
de empreendimentos relativo às demandas dos movimentos nas situações de
conflitos fundiários aumentaram para apenas dois, quais sejam, a continuação da
urbanização integrada na Av. Aliomar Baleeiro - Alvará No 14282 que
deu origem ao Conjunto Habitacional Antonio Conselheiro (PROJETO EVA), e o ao
atendimento parcial das famílias remanescentes do Clube Português - algumas no
empreendimento no bairro de Valéria e outras no bairro do Dique do Cabrito -
fruto de um acordo onde Governos Municipal e Estadual se comprometeram em
atendê-las, mas que ate agora não foi cumprido integralmente, restando ainda 33
famílias oriundas do antigo Clube para serem atendidas.
- Mesmo que se argumente que outros
12 empreendimentos públicos, aprovados em 2007 e outros cinco, aprovados em
2008, referem-se à intervenções de habitação de interesse social, já que
correspondem a implantação de atividades mistas, residenciais, de saneamento e
higiene ou saúde, a empreendimentos de Urbanização integrada ou Urbanização,
Parcelamento, Remembramento e desdobro, suas execuções não constituem
atendimento estatal voltado à promoção dos direitos à cidade e à moradia dos
ocupantes e coletividades em nenhuma das áreas de atuação do movimento popular
levantadas no Relatório do GT de Conflitos Fundiários Urbanos, sendo esses
ocupantes e suas demandas específicas invisibilisados. Quando se considera que
estes conflitos, surgem como formas de resistência e estratégias de
contestação, que possibilitam algumas inovações acerca da diversidade de
ocupação de espaços privilegiados, pelos movimentos sociais, já que a maior
parte das ocupações a que se referem, mesmo precárias, encontram-se em áreas
infra-estruturadas (sobretudo no Centro Antigo de Salvador e seu entorno), nas
quais disputam permanecer e acessar condições qualificadas e dignas de vida
vai-se constatar que tal orientação do poder público, não incorpora nem
reconhece os pobres nos lugares, que não os da periferia, para superá-la
reivindicamos o atendimento prioritário das demandas das 42 ocupações
levantadas pelo GT de Conflitos Fundiários Urbanos.
- Outra questão importante é
observar a praticamente nula atuação municipal na produção habitacional de
interesse, constatada tanto pela inexistência de empreendimento aprovado no ano
2007, como da aprovação de apenas um alvará de construção requerido por órgão
municipal em 2008 (alvará 14695). Esta constatação indica que permanece na
Bahia a histórica centralização das políticas urbanas no nível governamental
estadual, distorcendo as atribuições do pacto federativo brasileiro, onde é
definida como competência comum de todos os entes federativos a promoção de
programas de construção de moradias e a melhoria das condições habitacionais e
de saneamento básico, bem como a responsabilidade do município com relação ao
controle do uso e da ocupação do solo urbano. Para superar essa problemática é
fundamental que a Prefeitura regulamente e aplique já os instrumentos de
democratização e popularização do acesso à terra urbanizada (ZEIS, IPTU
Progressivo etc), bem como implantação
do Conselho Municipal.
- Além disto é crucial chamar
atenção para a baixíssima participação do poder público em geral frente a
produção do Mercado Imobiliário, já que do total de 762 alvarás de construção
aprovados em Salvador no ano de 2007, apenas em 19, os requerentes foram órgãos
ou instituições públicas. Em 2008, do total de 656 alvarás aprovados, o número
de requerentes órgãos ou instituições públicas cai para 15.
- Outra questão primordial diz
respeito ao risco da capital não ser contemplada a contento pelo PMCMV,
haja vista que a quota prevista para a Bahia (32 mil unidades habitacionais) já
ter sido esgotada com os contratos já assinados por 10 municípios com a Caixa
Econômica Federal (CEF), sendo que Salvador apesar de concentrar a maior parte
do déficit habitacional do Estado não foi contemplada, restando apenas o compromisso
do Governador fazer gestão junto ao Governo Federal, para quota suplementar e
garantir uma distribuição justa dos recursos disponíveis.
- Outro problema que também precisa
ser colocado na ordem do dia, é a não consolidação de vários Projetos de HIS -
Habitação de Interesse Social com recursos da União disponibilizados pelo FNHIS
e PAC desde de 2007, tais como os projetos do Governo do Estado de produção na
Avenida Assis Valente - Fazenda Grande Cajazeiras (504 unidades habitacionais)
e de produção e urbanização da Falha Geológica, o Projeto da Prefeitura de Urbanização da Vila
Metrô (240 unidades habitacionais - Prefeitura de Salvador); além de projetos
relativos a outros programas tais como a morosa 7ª Etapa da Revitalização do
Centro Histórico para cumprimento da TAC que beneficia 103 famílias que lutaram
pela permanência no Centro e que é uma referência fundamental de mudança de
paradigma na promoção do direito à cidade e
os PROJETOS PILAR I e II, para contemplar as famílias que vivem as
margens do antigo Plano Pilar e famílias do Edificio Rajada-MSTS. Para tanto Prefeitura
e Governo do Estado precisam decidir enfrentar e superar os entraves de gestão
e operacionalização da execução na promoção de HIS.
- Outra questão crucial é a
necessidade de destinar, através de requalificação, os domicílios vagos, que se
concentram, sobretudo na região do Centro Antigo de Salvador, para HIS e usos
institucionais complementares que concretizem o direito à cidade, para tanto
reivindicamos uma articulação federativa em que Governos Federal e Estadual
disponibilizem linhas específicas de investimento e a Prefeitura adquira os
imóveis vagos, ociosos e abandonados que possuam dívidas tributárias através de
doação em pagamento. Essa é a solução apontada para atender as 97
famílias do MNLM que vivem no Edf. Lord e que antes dessa ocupação se encontrava
abandonado há mais de 40 anos e do Prédio ocupado pelas famílias do MDMT, onde
anteriormente funcionava a Secretaria Municipal de Finanças.
- E por fim é preciso que o Estado e
a Caixa Econômica Federal se sensibilizem e aprovem o realinhamento financeiro,PARA
COMCLUSÃO DAS UNIDADES HABITACIONAIS dos Projetos do Crédito Solidário de
Pirajá e Tubarão, que já se arrastam a quase 4 anos e que juntos beneficiará
quase mil famílias e que por razões injustificáveis se encontram a quase 5
meses paralisadas.
Para que moradia digna não seja
apenas intenção, é urgente a instituição de uma atuação estatal incisiva que vá
do discurso para a ação. Por isso, através desta Grande Marcha, os movimentos
sem-teto, de luta por moradia digna e pela Reforma Urbana com atuação em
Salvador e na Bahia, reivindicam o atendimento de todas as propostas
apresentadas, tanto pelo Município quanto pelo Estado, sob pena do aumento das
tensões nas bases.
NOSSAS REIVINDICAÇÕES GERAIS:
1 - Reforma Urbana Já;
2 - Elaboração de planejamento
estratégico de desenvolvimento urbano e sustentável; -
3 Estabelecimentos de metas que
gerem continuidade administrativa com obrigações e cumprimento;
4 - Controle social sobre o PAC; 5 -
Posse imediata do Conselho Municipal de Habitação.
NOSSAS REIVINDICAÇÕES ESPECIFICAS:
1 - Cumprimento da RESOLUÇÃO 003/09
do CONCIDADES, ratificada pelo Decreto Estadual 11.521/09;
2 -Quota de 5 mil unidades
habitacionais do Programa Minha Casa Minha Vida, para atender as demandas dos
Movimentos de Moradia que tenham mais de 2 anos e com assento no CONCIDADES,
particularmente as demandas das 42 ocupações levantadas pelo GT de Conflitos
Fundiários;
3 - Aproveitamento das terras da
antiga Rede Ferroviária Federal para construção de Moradias de interesse social
(terras já disponibilizas pela Gerência do Patrimônio da União;
4 - Desapropriação e requalificação
do Edifício Lorde;
5 - Solução para as famílias que
vivem no prédio da antiga Secretaria de Finanças da Prefeitura;
6 -
Execução imediata dos Projetos da Assis Valente e Vila Metrô já
aprovados e com recursos disponibilizados desde março de 2007 pelo Governo
Federal;
7 -
Reinício das obras do Projeto Pilar I e inicio do Projeto Pilar II com
recursos do PAC;
8 - Liberação imediata do
realinhamento Financeiro para conclusão das obras do Projeto Crédito Solidário
de Pirajá e Tubarão;
9 - Solução para as famílias que
vivem acampadas na antiga Fábrica de Mamona Imbasa e formação de comissão
paritária para solucionar o conflito fundiário ali instalado, cujo pedido de
reintegração e posse foi negado pela justiça, que sugere negociações entre as
partes e Poder Público;
10 - Pagamento pela CONDER e
Prefeitura dos alugueis sociais atrasados respectivamente 2 e 4 meses.
Janeiro de 2010.
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